Colangites em gatos: particularidades da espécie e a ultrassonografia

As colangites estão entre as desordens hepáticas de maior ocorrência em felinos, depois das lipidoses. Os gatos apresentam predominantemente doenças do trato biliar em contraste com os cães, cujas doenças hepáticas, como as hepatites, são mais frequentes.1

Caracterizam-se pela inflamação do trato biliar, podendo se estender para o parênquima hepático secundariamente. São classificadas histologicamente em três formas principais: colangites neutrofílicas, colangites linfocíticas e colangites crônicas associadas à parasitas hepáticos (Platynosomum sp).1

A forma neutrofílica é a mais comum, caracteriza-se por infiltrado, principalmente de neutrófilos nos ductos biliares. Acomete animais jovens a meia idade e possui apresentação mais aguda. Acredita-se que seu processo seja causado devido à ascensão de bactérias (mais comumente E. Coli) através do intestino delgado. Doença pancreática e intestinal podem ocorrer concomitantemente à mesma.7

Já a forma linfocítica caracteriza-se por infiltrado de linfócitos ao redor de ductos biliares. Acomete gatos de meia idade a idosos, sendo a raça persa mais predisposta. Sua etiopatogenia ainda é desconhecida, tendo sido sugerida causas imunomediadas ou infecciosas.4

A colangite crônica é causada mais comumente pelos trematódeos Platynosomum fastosum. Um parasita comum de regiões subtropicais e tropicais que infecta principalmente ductos biliares e a vesícula biliar dos felinos. Seu ciclo biológico necessita da presença de hospedeiros intermediários, como lesmas, besouros e lagartixas. Os gatos, hospedeiros principais, geralmente se infectam através da ingestão de lagartixas contendo metacercárias, que migram do ducto colédoco até os ductos biliares e a vesícula biliar, levando a dilatação e proliferação inflamatória nos ductos.2,9

O diagnóstico das colangites se dá atrás da combinação do histórico, sinais clínicos e de exames complementares. Porém só possível chegar ao diagnóstico específico da enfermidade através do exame histopatológico.

Os sinais clínicos geralmente são inespecíficos e podem incluir: anorexia, perda de peso, letargia, vômito, icterícia (variável) e hepatomegalia. Nos exames laboratoriais bioquímicos comumente são encontradas hiperbilirrubinemia, elevações de enzimas hepáticas (ALT, FA, AST e GGT) e elevação de ácidos biliares, podendo ocorrer também hipoalbuminemia em casos crônicos. No hemograma podem ser encontradas neutrofilia e anemia.3

A ultrassonografia é o exame de imagem rotineiramente utilizado na avaliação hepática e do trato biliar. Em muitos gatos podem não ser encontradas nenhuma anormalidade ao exame ultrassonográfico. Porém anormalidades como hepatomegalia, aumento de ecogenicidade de parênquima hepático, dilatação de ducto biliar e presença de lama biliar, quando presentes concomitantemente podem ser indicativas de colangite. 5, 6,8

O aumento da ecogenicidade do parênquima hepático pode estar associado a quadros inflamatórios crônicos com presença de áreas de fibrose ou à infiltrado gorduroso, secundário à quadro prolongado de anorexia.5

As paredes de vias biliares podem aparecer hiperecogênicas devido à variável quadro de espessamento e fibrose, podendo também aparecer com aspecto dilatado e tortuoso.  A dilatação de ducto biliar comum (diâmetro normal até 4mm) é um forte indicativo de colangite.5

Ducto biliar

Pode ocorrer também espessamento de parede de vesícula biliar (maior do que 1mm) secundário à quadro de colecistite, estando comumente associada à colangiteneutrofílica.A presença de debris/lama biliar na vesícula biliar em felinos pode estar relacionada à jejum prolongado, colestase intra ou extra-hepática ou colecistite. Associada à elevação de enzimas hepáticas torna-se um forte indicativo de doença hepatobiliar.Quadros crônicos de inflamação de duodeno/intestino delgado e/ou pâncreas também podem levar à alterações em vesícula biliar.5,8

Espessamento da parede da vesícula biliar

Duodeno

Os principais diagnósticos diferenciais incluem peritonite infecciosa felina, obstrução de ducto biliar extra-hepático, neoplasias, hipertireoidismo, amiloidose, lipidose hepática, toxoplasmose e hepatite reativa inespecífica. 4

O tratamento consiste principalmente em interrupção da inflamação, redução de fibrose e remoção de fatores predisponentes, como infecção.

        O prognóstico é variável e depende da gravidade da doença, bem como da resposta ao tratamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Armstrong JP. FelineCholangitis. European veterinary conference Voorjaarsdagen; 2014 April 17-19; Amsterdam, Netherlands. Abstracts.
  • Basu AK, Charles RA. A review of the cat liver fluke PlatynosomumfastosumKossack, 1910 (Trematoda: Dicrocoeliidae). Veterinary Parasitology, 2014;200: 1– 7
  • Callahan Clark JE, Haddad JL, Brown DC, et al. Feline cholangitis: A necropsy study of 44 cats (1986-2008). J Fel Med Surg 2011; 13:570-6.
  • German A. Feline Cholangitis. Veterinary Focus. v. 19, n.2, p. 41-46, 2009.
  • Marolf A, Leach L, Gibbons D, et al. Ultrasonographic findings in feline cholangitis. J Am AnimHospAssoc2012; 48: 36–42.
  • Marolf AJ, Kraft SL, Dunphy TR, et al. Magnetic resonance (MR) imaging and MR cholangiopancreatography findings in cats with cholangitis and pancreatitis. J Fel Med Surg 2013; 15:285-94.
  • Nelson RW; Couto CG. Doenças Hepatobiliares no Gato. In: Medicina Internade Pequenos Animais. 4ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. p. 520-541.
  • Nyland TG; Larson MM; Mattoon, JS. Liver In: Nyland TG; Mattoon JS. Small Animal DiagnosticUltrasound. 3 ed. Missouri: Elsevier, 2015. p. 332-399.
  • Soldan MH, Marques SMT. Platinosomose: Abordagem na clínica felina. Revista da FZVA. Uruguaiana, v.18, n. 1, p. 46-67. 2011.

Matéria escrita por:

Marianna_Pantano

Marianna Pantano