Ruptura do ligamento cruzado cranial: uma das principais causas de claudicação em cães.

O ligamento cruzado cranial (LCCr) limita a movimentação da articulação femorotibiopatelar (FTP), estabelecendo estabilidade craniocaudal, evitando a hiperextensão do joelho e limitando a rotação interna da tíbia (Brinker et al. 1990, Payne e Constantinescu 1993, Moore e Read

1996).

Lesões do LCCr são frequentes em cães e consideradas uma das principais causas de claudicação (Haransen 2003, Hayashi et al. 2004, Powers et al. 2005).

A instabilidade do joelho decorrente da ruptura do ligamento cruzado cranial (RLCCr) é uma das mais frequentes causas de dor em membro pélvico de cães (Arnoczky 1980). A instabilidade articular, na maioria das vezes, gera em processo articular degenerativo (Vasseur 2003).

 As raças de porte grande são as mais acometidas (Vasseur 1993), incluindo Mastim Napolitano, Akita, São Bernardo, Rottweiler, Mastiff Inglês, Labrador e o American Staffordshire Terrier (Duval et al. 1999). Em outro estudo envolvendo 775 cães com ruptura do LCCr, foi observada maior prevalência da afecção nas raças Boxer, Doberman, Golden Retriever e Labrador (Lampmann et al. 2003).

A origem da RLCCr pode ser traumática, porém, na maior parte dos casos, é degenerativa.

Sabe-se que o ligamento cruzado cranial sofre uma degeneração, principalmente em sua porção mais central, sendo este processo observado mais precocemente em cães de porte grande e mais tardiamente nas raças menores (Vasseur et al. 1985).

Cães com mais de 15 kg apresentam maior frequência da afecção e a maioria dos casos acontece naqueles com idade inferior a cinco anos. Por sua vez, em cães com menos de 15 kg há uma menor incidência de ruptura do LCCr e essa ocorre principalmente com mais de cinco anos (Johnson e Johnson 1993, Vasseur 1993). Acredita- se que as alterações degenerativas, que acarretam a perda na organização das fibras de colágeno do LCCr, ocorram de uma forma tardia nos cães mais leves e de uma forma precoce nos com mais de 15 kg (Johnson e Johnson 1993, Moore e Read 1996).

Whitehair et al (1993) sugerem que a conformação anormal da tíbia, doença imunomediadas e obesidade são condições que contribuem para a degeneração do LCCr.

Segundo Rudy (1974) a luxação patelar é um problema clínico comum que contribui com o estresse excessivo sobre o LCCr.

Na rotina os métodos de diagnóstico primeiramente utilizados são os testes manuais. As técnicas mais utilizadas são o teste de gaveta cranial e o teste de compressão tibial. Eles têm como objetivo verificar a presença de movimentos anormais da tíbia em relação ao fêmur Johnson e Johnson 1993, Vasseur 1993, Rooster et al. 1998). São técnicas relativamente simples e de baixo custo, porém apresentam um índice moderado de resultados falso-negativos (Jerram e Walker 2003).

Em geral, o exame radiográfico é o primeiro a ser solicitado, tanto para o diagnóstico em pacientes humanos quanto em animais (Yonn et al. 1997, Hoskinson e Tucker 2001), e as projeções mais realizadas são a mediolateral, mediolateral com estresse e a craniocaudal. As alterações radiográficas podem variar de acordo com o tempo de evolução e o tipo da lesão, e a maior parte dos casos, a técnica radiográfica fornece informações importantes a respeito da gravidade do quadro. O deslocamento cranial da tíbia em relação ao fêmur, a presença de osteófitos, entesófitos e a diminuição da área correspondente ao coxim gorduroso constituem as alterações radiográficas mais comuns (Widmer et al. 1994) em cães submetidos à lesão experimental do LCCr.

 A ocorrência de casos falso-negativos é comum durante a realização do teste de gaveta (Jerram e Walker 2003) e em laudos radiográficos em cães devido a rupturas parciais do ligamento, quando uma das faixas íntegras do ligamento é responsável por impedir o deslocamento cranial da tíbia em relação ao fêmur. Além disso, em quadros crônicos a fibrose na articulação do joelho também colabora impedindo o deslocamento cranial da tíbia (Heffron e Campbell 1978).

O exame ultrassonográfico é utilizado há anos como exame de rotina na avaliação de distúrbios articulares em humanos. Na medicina veterinária, especificamente na área de animais de companhia, a ultrassonografia articular é um método de diagnóstico ainda pouco utilizado (Kramer et al. 1999, Samii & Long 2002). Apresenta as vantagens de não utilizar radiação ionizante e de permitir a observação de estruturas intra-articulares (Muzzi et al. 2001). Porém, a experiência do operador e a necessidade de transdutores específicos são fatores limitantes (Schnappauf et al. 2001).

O padrão ouro para diagnóstico da RLCCr é a artroscopia, pois permite a observação direita do ligamento (Oliveira et al., 2009).

O tratamento medicamentoso demonstra-se mais efetivo nos animais de até 15 quilos, sendo a intervenção cirúrgica necessária em alguns casos, porém mais frequente e indicada nos animais de maior porte (Korkvick Johnson, Schaeffer 1994).

Diversas são as técnicas cirúrgicas existentes para a estabilização do joelho com RLCCr. Dentre as principais técnicas utilizadas estão as intracapsulares e extracapsulares, transposição da cabeça da fíbula e as osteotomias de nivelamento do platô tibial (Kim et al., 2008).

Nenhuma das técnicas extra ou intra-articulares interrompem a progressão da osteoartrite, nem apresentam diferenças significantes entre si. Instabilidade articular está presente após a aplicação de ambas as técnicas de reparo (Elkins et al. 1991, Moore e Read 1995).

A ruptura do ligamento cruzado cranial apresenta-se como um desafio para clínicos e cirurgiões de pequenos animais por não existirem comprovações científicas quanto ao seu mecanismo de desencadeamento e pela falta de consenso entre os pesquisadores acerca do protocolo terapêutico mais adequado, principalmente quando se consideram o desenvolvimento e evolução da doença articular degenerativa (Buquera et al., 2004).

Referências

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Matéria escrita por:

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Fernanda Helena Saraiva

Sócia e fundadora da MobileVet